domingo, 21 de dezembro de 2014

Frio





Sinto um frio dentro de mim.
Tenho tudo para manter-me quente, mas o frio sempre está lá.
Há momentos felizes que não o sinto. Ele simplesmente não existe.
Mas há outros em que só tenho a ele.
Às vezes parece que irá sumir e nunca mais voltar, mas ele sempre volta.
Sempre esteve lá.

Ultimamente sinto o frio nos momentos felizes, onde apenas o calor deveria ocupar.
Em momentos de plena alegria sinto o frio crescer.
Já não sei mais como fugir. Já não sei mais como temer.
Por horas pensei que fosse o inicio de uma consciência.
Talvez uma revelação que se elevaria a uma transformação em minha vida.
Hoje não acredito mais nisso.

O frio é um corte seco.
Um arranhado no disco e o trinque no copo.
Um dia ele irá surgir e ficará em você para sempre.
Todos temos o frio dentro de nós. O meu é no meu coração.
A cada batida, a cada pulsar, o frio se espalha pelo corpo e me faz tremer. Tremer de medo.
A solidão surge quando cercado pelos que amamos.

Uma solidão tempestuosa que varre os sentimentos, deixando apenas um deserto na alma.
Ninguém compartilha o seu deserto com você.

Um sofrimento que não sabemos explicar, e que ninguém tentará entender, toma lugar dos seus sonhos e ambições.
Faz-nos parecer tolos por desejar grandes coisas em nossas vidas, mesmo que pequenas para os outros.
Somos pequenos para os outros.

E aqueles que nos amam de verdade apontam para uma estrela que já desistimos de seguir.
Essas estrelas maquiadas de sonhos não mostram caminhos e piscam como ilusões.
Seu brilho ilumina não trilhas, o deserto.
Já me perdi nesse deserto uma vez, e não o farei de novo.

Fingimos e brincamos que já estamos subindo a escada em busca dos sonhos, mas na verdade temos medo de altura e a deixamos para trás.
Fugimos e nos esquecemos onde à encontrar. Lá no deserto outra vez.

Um demônio cresce dentro de mim.
Ele não sou eu, mas é aquilo que eu vou ser.
O vejo crescer e alimentar-se de desilusões.
Vejo-o convidar-me a sentar ao seu lado e ver como todos estão bem e te deixaram para trás.
O mundo girou sem você e para sempre estará lento  e amarelo.
Como um sorriso falso e uma piada que você deixou de rir à anos, mas a conta como se lhe fizesse bem.
As memórias ardem como latências de uma ferida aberta, e tem gosto de fracasso.
Você podia tudo e hoje está atrasado.
Você conseguiria tudo e hoje gosta de evitar a queda.
Nem me levanto mais.

O demônio frio me corta, rasga e sangra.
Estou nu e exposto.
Um holofote queima enquanto me protejo da luz.
Não há amor, sorrisos e calor, só vergonha.
Uma vergonha venenosa e cancerígena.
Uma vergonha amarga e pulsante.
Uma vergonha medrosa e infeliz.
Uma vergonha fria.


Sinto um frio dentro de mim.